Os aspectos que esperamos desenvolver apontam para o fato de que no universo criativo de Clarice Lispector compartilham elementos pouco estudados no âmbito investigativo da Literatura Brasileira. Embora complexo, não é intransponível. Ao contrário, o que se observa é uma capacidade natural de espelhar um caminho seguro ao qual o leitor pode se ater e saber mais intimamente dele próprio. Por isso, de seu texto emana o sentido de que, à medida que mais descobrimos, mais se oculta, vira, revira, esconde, encobrindo-se faces-sob-faces, de modo a manter-se continuamente novo e refeito. Esse empreendimento é o que possibilita mantê-lo em consonância direta com a dinâmica da vida que se abre para o “sempre novo”, para o inesperado (às vezes insólito) e para a realidade mais íntima do homem. Neste sentido, permite, tanto a autora quanto a cada leitor de sua grande obra, revisitarem-se enquanto seres que se buscam conhecer em origem. Como o término que não é um final de A paixão segundo GH, o ato criativo de Clarice, concretizado por sua obra, também assume uma equação de seis travessões sucessivos, sobre os quais Benedito Nunes expressa: “a pontuação inusitada e o movimento circular da narrativa revelam como Clarice Lispector alcança os limites das normas da enunciação e cria uma estrutura semântica complexa” (1988, p. 09). Assim, sua produção literária se constitui ainda num poço de possibilidades e revelações a espera de desvendamento. Daí, acreditamos, a aura misteriosa a ela destinada e a dificuldade de compreensão tantas vezes enfrentada pelo leitor.
A linha condutora que norteia esse estudo – o texto literário aliado à visão Zen Budista. – procura dar a tônica modalizadora e dinâmica de toda a intenção criativa manifesta por Clarice. Aí parece residir o poder de sua profundidade, grandeza, abrangência e genialidade. Principalmente porque é a chave de um circuito que instiga a percorrê-la como circuito elétrico que conduz a rede interna e, dali, ao núcleo gerador das coisas: a fonte primeira e fundante de nós mesmos. Clarice, ao lidar com a linguagem, busca a si mesma e assim permite o vislumbrar do indivíduo em sua essencialidade. Se ao lidar com a linguagem o faz de modo contundente, ao lidar com o indivíduo, através da linguagem, o faz de modo similar. Experimenta a mesma ânsia de entrega e ruptura de que se vale para expressar-se por meio de signos artístico, ao direcionar-se para o cerne primordial desse mesmo complexo. Apresenta a possibilidade de o receptor se enxergar integralmente, quer dizer, ir ao encontro de si mesmo na sua consciência mais encoberta e original. Deste modo, ao indivíduo é facultado o poder de revelar-se pelo estado prático e implicativo da linguagem, uma vez que, por este segmento, a linguagem (envolta por todo seu aparato de superação) é concedida ao indivíduo como fonte de revelação, bastando para isso ser captada, eficientemente, em sua potencialidade de ser e não-ser.
Em princípio pode soar distante aproximar duas instâncias – a literatura de Clarice e a prática da experiência Zen – que, à primeira vista, se mostram desprovidas de pontos de contato. No entanto, a possibilidade de um exame mais minucioso pode direcionar para situação oposta. Isso quer dizer que grande parte dos procedimentos construtivos postos em ação por Clarice Lispector parecem sugerir/refletir o espírito de atuação daquela atividade prática milenar.
Detecta-se no estudo da obra o teor místico que fomenta o ato criador em Clarice Lispector. A autora cultivava em vida o prazer de incursionar pelo desconhecido, marcada pelo assédio intenso ao misticismo, nutrindo enorme interesse por fenômenos ocultos. Fascinava-se com eles, pois eram tidos como articulações mágicas de difícil explicação pelo pensamento puramente racional e científico. Além disso, “vivia perplexa com a multidão de coisas que exigem explicação e exibem uma mensagem sem deixarem qualquer indício de seu significado” (1992). Clarice escrevia, sem vacilar, sobre nebulosos princípios misteriosos. Na crônica “A flor mal-assombrada e viva demais”, se manifesta:
Juro, acreditem em mim – a sala de visitas estava escura – mas a música chamou para o centro da sala uma coisa que acordada estava ali – a sala se escureceu toda dentro da escuridão – eu estava nas trevas – senti porém que por mais escura a sala era clara – agasalhei-me do medo no próprio medo – como já me agasalhei de ti em ti mesmo.
Olga de Sá observa também que, desde a publicação de Perto do coração selvagem (1944), Clarice viu a estranheza provocada por seu texto inovador se transferir para sua imagem pública. A aura de mistério que a envolvia acentuou uma expectativa muito forte em torno de sua figura. Por isso, o entrelaçamento entre cotidiano e ficção se reveste de aspectos formais capazes de conferir-lhe uma forte dose de estranhamento.
Este parece ser o caminho que possibilita um princípio de comunhão com o Zen. Observemos as palavras de D.T. Suzuki,: “eu disse que o Zen é místico. Isso é irremediável pois o Zen é a nota tônica da cultura oriental. É o que faz o ocidente freqüentemente falhar na sondagem exata da mente oriental, pois o misticismo na sua verdadeira natureza desafia a análise da lógica e a lógica é a característica fundamental do pensamento ocidental” (1969, p.55). Deste modo, uma porta se abre para a sondagem do universo da autora e, a partir desta, outras se articulam.
Pode se observar que tanto Clarice e sua atitude literária quanto a prática Zen nivelam-se por um semelhante objetivo: despertar o autoconhecimento e agregar-se à raiz da essencialidade primeira das coisas. Do ponto de vista Zen “o relance na nossa própria natureza, o homem original e a profundeza do ser são (...) para o mestre Zen um assunto de suprema importância” (1969, p.23) . Ainda se pode notar a importância que tal anseio inspira, através das palavras de Suzuki: “o Zen (...) leva-nos de acordo com as necessidades de nossa vida interna até um reino absoluto em que não existe qualquer sorte de antítese” (1981, p. 46). Ainda mais. Nota-se a maneira como as partes se posicionam diante das coisas observadas. O modo de apreensão oriental se baliza por um fluxo movido por uma intuitiva captação global das coisas, não se preocupando com aspectos particulares e fragmentários da exterioridade. Por seu turno, Clarice, ao atuar literária e vivencialmente, sugere mover-se de acordo com princípio semelhante. Pela estrutura do texto; pela continuidade formal que encorpa e distingue sua produção, dentro do plano literário, a artista sugere construir seus textos de maneira lógica e planejada. Isso dá a impressão de que Clarice utiliza um processo construtivo em que cada passo dado se faz mediante um planejamento pré-estabelecido e consciente de sua recorrência. Observando uma ordenação controlada. Entretanto, ao mesmo tempo em que esses fatos se evidenciam, a escritora (contraditoriamente) produz seu trabalho criativo instintiva e intuitivamente. Esse é um fato interessante. Parece uma incoerência. No entanto, é o elemento conflitante desse paradoxo que Clarice parece cultivar. Assim, a escritora ordena a linguagem de maneira incisiva entre o que se espera e o que não se espera. Retira disso o condimento essencial que confere distinção e fortaleza ao seu produto literário. A questão se complica e escapa ao raciocínio meramente linear. Como pode, de maneira declaradamente intuitiva e instintiva, atingir programações tão próximas da exatidão, como se fossem meticulosamente calculadas? E mais, como perpetuar essa forma de atuação, sendo ela fruto da intuição? É difícil entender o fato segundo uma ordenação lógica do pensamento. No entanto, aí está o conjunto de sua obra demonstrado o contrário. Nesse sentido, Clarice parece utilizar como método o reverso negado do próprio método. Sobre esse aspecto Benedito Nunes expressa:
Os fragmentos constituíam, pois, o elemento básico da narrativa em elaboração. Para dizê-lo de outro modo, a elaboração da narrativa, sob o ritmo intermitente da escrita, encontra no fragmento o seu momento primeiro e decisivo. (...) O segundo momento, que também era o das correções, interferia alterando a posição das seqüências e a ordem das palavras, mas sem alterar a estrutura das frases. É de presumir-se, então, que o texto definitivo, produto do segundo momento, se distancia o menos possível do texto fragmentário do primeiro. E se a suposição é correta, as variantes não comportariam alterações substanciais do texto preliminar, que seria assim muito mais do que um simples esboço ou borrão. (1988, pp. XXXV/XXXVI)
Ao agir desta forma, parecendo destinar pouco interesse para a particularidade das coisas, fixando-se em seu fundamento integral, Clarice sugere tornar as coisas sobre si mesmas. Com isso fecha – nelas – o ciclo sobre elas próprias. Uma passagem de Olga Borelli vem ao encontro de tal pensamento:
Acendia um incenso, uma vela, colocava um disco na vitrola: em geral Bach, Beethoven, Stravinsk, Debussy. Sentava-se, acomodava a máquina no colo e datilografava diligentemente uma tradução ou prosseguia um conto interrompido dias antes. Nesses momentos a criação era febril, nada nem ninguém quebrava o encantamento. Nunca vacilava numa frase, a ‘inspiração’ vinha num ímpeto avassalador e as folhas em branco eram preenchidas com sofreguidão; parecia que, com o movimento das mãos, tentava alcançar a vertiginosa rapidez do seu pensamento. (1981, pp. 32/33)
E complementa a própria Clarice:
Meu trabalho vem às vezes em nebulosas sem que eu possa concretizá-lo de algum modo. Passo dias e até anos, meu Deus, esperando. E, quando chega, já vem em forma de inspiração. No início de uma história, acho que tenho um vago plano inconsciente que vai desabrochando à medida que trabalho. Fundo e forma sempre foram uma coisa só. (1981, pp. 81/2)
Outra possibilidade de contato se verifica pelo fato de que a literatura praticada por Clarice, tanto quanto o Zen, parece se amalgamar na idéia de vazio. Este produto sugere ter como força motriz o próprio indivíduo Clarice Lispector:
Há um silêncio total dentro de mim. Assusto-me. Como explicar que esse silêncio é aquele que chamo de o Desconhecido. Tenho medo dele. Não porque pudesse Ele infantilmente me castigar (castigar é coisa de homens). É um medo que vem do que me ultrapassa. E que é eu também. Porque é grande a minha grandeza. (1978, p. 143)
O vazio intenso que cobre Clarice reveste também seu pensamento, nos momentos de total entrega criativa:
É preciso ter muita coragem para ir ao fundo da vida. Porque no fundo da vida nada acontece ao homem, ele só contempla. Nem sequer pensa no que contempla. Quando eu fico sem nenhuma palavra no pensamento e sem imagem visual interna – eu chamo isso de meditar. O silêncio é tal que nem o pensamento pensa. (1978, p. 35)
No texto de Clarice se observa o fato destacado pelo cultivo acirrado e contínuo da utilização da palavra que conduz à não-palavra. Observa-se em Um Sopro de Vida: “Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? Esgotaram-se os significados. Como surdos e mudos comunicamo-nos com as mãos. Eu queria que me dessem licença para eu escrever ao som harpejado e agreste a sucata da palavra. E prescindir de ser discursivo. Assim: poluição” (1978, pp.12/3). Esta alquimia de conjugação de signos, como que a transmutar afirmação e negação ao mesmo tempo, não atua como modo de aniquilamento estéril pura e simplesmente. Pelo contrário, vale-se como meio de geração por viabilizar a eclosão potencial de um terceiro elemento que inerentemente subjaz ao processo: o silêncio – fonte permanente de pré-existência lingüística. Assim, extrapola em muito a importância que se dispensa ao mero espaço vazio entre palavras e situações não expressas. Veja-se a afirmação que segue: “mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”. E complementa Clarice: “o público percebe nas entrelinhas a realidade”. Deste modo, para Lispector, o silêncio não sugere representar o instante de expectativa que pode antecipar uma certa palavra ou conjunto delas, o que denotaria apenas possibilidade de acontecimento e simples movimento de previsão. O silêncio na prática de Clarice sugere muito mais que uma antecipação, pois – latente – potencializa-se na própria sintagmatização das palavras e na ordenação do pensamento, não com intuito de despertar mera indignação ou arrependimento e, sim, como vazio profundo, ação de uma alavanca problematizadora em que passa a sugerir um dado conhecimento integral não manifesto sobre uma única coisa que verdadeiramente mereceria ser revelada:
Tem coisas que os ignorantes sabem e que eu, por não ser um sábio, não sei. A insuficiência da inteligência. Quando eu penso não presto atenção ao pensamento – se prestar atenção tudo para (...) Descobri que eu não preciso saber o que penso. Se eu ficar consciente do que penso passo a não poder mais pensar. O vazio, e o não pensar, é o melhor estado mental para que as imagens se façam. (1978, p. 78)
Outra forma de atingir ao silêncio por intermédio da palavra se verifica pelo procedimento da repetição. Assim, Clarice repete palavras, frases, idéias à exaustão provocando neles um esvaziamento conteudístico, um aniquilamento do volume esperado até que nada mais represente a não ser seus estados de referente. Envolto por profundo e eloqüente silenciar de valores.
De maneira análoga, Suzuki destaca fato interessante. Ao ser questionado por um imperador chinês sobre o mais santo e supremo princípio do budismo, Bodhidharma – primeiro patriarca Zen da linha de transmissão chinesa – teria respondido: “Um vasto vazio sem nada santo dentro dele” (1969, pp. 64/5). Assim, para o Zen , o princípio do silêncio – sunyata – é um “abismo eterno” no qual, “todas as condições e contrastes estão sepultados. É o silêncio de Deus, que profundamente absorvido na contemplação das suas obras passadas, presentes e futuras, se senta calmamente em seu trono de absoluta totalidade e unidade” (1969, p. 56)
A prática literária de Clarice parece apontar, em primeira instância, para o autoconhecimento. Buscar conhecer a si mesma, através de seus personagens, é a grande experiência pessoal a ser vivenciada. Observe-se a passagem de Um sopro de vida: “estou me sentindo como se já tivesse atingido secretamente o que eu queria e continuasse a não saber o que alcancei. Será que foi essa coisa meio equívoca e esquiva que chamam vagamente de ‘experiência’? (1978, p. 32). Ao buscar o ser que a habita abre vazante para conhecer ao ser que habita todos os indivíduos em essencialidade. Do mesmo modo no Zen, a experiência pessoal é princípio relevante. O Zen insiste forte e persistentemente na experiência espiritual interna, pois, pode conduzir ao satori. Assim, “o satori é a razão de ser do Zen e sem ele o Zen não seria Zen” (1969, p. 119). Pois bem, de certo modo, Clarice partilha de sintoma análogo ao experimentar intimamente em seus personagens e em si mesma através do exercício literário da autorecepção, instantes de profundo estranhamento – inusitados e reveladores – conhecidos por estados epifânicos.
Em virtude dos pontos de contato que uma atividade assume com a outra – mantidas as individualidades latentes – uma análise comparativa (ainda que superficial) pode consagrar nosso intento e reiterar que os princípios de atuação entre os dois processos conferem condição de a literatura de Clarice se modelar à praticidade Zen e ampliar e transcender o seu valor artístico, incrementando-o com mais uma possibilidade determinante: ser instrumento de ação prática a serviço de receptores que se predisponham a percorrer, em profundidade, os caminhos que dele se abrem. Rumo a si mesmos. Deste modo, o sentido original do texto de Clarice parece se abrir à luz e, como nos é de interesse destacar, ampliar-se de maneira considerável por possibilitar – a partir da arte literária – uma aplicação de ordem vivencial/não ficcional.
Assim, pensamos que – de certa forma – alguns dos princípios de base de construção do procedimento criativo de Clarice se amalgamam a alguns princípios de fundamento da sabedoria prática oriental Zen Budista no que se refere à sua estrutura de verificação. Neste sentido, entrar em sintonia com o pulso da vida na dinâmica dela mesma; superar opostos – a questão do método e do não-método – é o modo de transcender tanto o ato do escrever quanto a si própria:
Tudo se passa num sonho de acordado: a vida real é um sonho. Eu não preciso me ‘entender’. Que vagamente eu me sinta, já me basta. Quando eu penso sem nenhum pensamento – a isso chamo de meditação. E é tão profunda que eu não alcanço e desaparecem as palavras, as manifestações. Eu medito, e o que sai dessa meditação nada tem que ver com a meditação: vem uma idéia que parece totalmente desligada da meditação. Só adianta ao que parece viver interrogativamente, pois para cada interrogação lançada no ar corresponde uma resposta trabalhada na escuridão de meu ser, essa parte escura de mim e que é vital, sem ela eu seria vazio. Toda vez que eu faço uma coisa com intenção não sai nada, sou portanto um distraído quase proposital. Eu finjo que não quero, termino por acreditar que não quero, e só então a coisa vem. (1978, pp.78/9)
É por essa veia que pensamos consagrar-se à atividade artística de Clarice a possibilidade de uma aplicabilidade prática e vivencial, cujo valor e importância se manifestam em razão diretamente proporcional ao teor poético que dela emana, pois o produto literário de Clarice é capaz de promover subversões, compor e destruir, desviar e substituir valores, de modo a deixar o receptor perplexo com a gama de possibilidades de utilização. E isso é a vida à frente. Basta entrelaçar-se a ela e dela se valer como luz íntima e segura da natureza nossa.
Assim, a cada palavra, a cada imagem inusitada, explode da natureza peculiar do texto de Clarice a certeza de que ainda há muito a caminhar. Muito a viver.
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